Semana passada começamos uma discussão, a respeito do conceito Zen no Japão, sobre a percepção de simples momentos cotidianos que contêm uma profunda essência da vida mesma, enquanto um ciclo em constante movimento, que está presente no nosso dia-a-dia, através de um olhar poético sobre o mundo.

Abro um parênteses: uma das características do estilo Zen de interpretação artística se encontra na íntima relação que o Homem estabelece com a Natureza, elemento básico da relação tradicional do japonês com o mundo. A própria religião nativa do Japão, o Shintoísmo, funda-se no reconhecimento dos deuses na percepção da natureza. Deuses são as árvores, o vento, o sol, a água, os animais – tudo que nos cerca é sagrado. E isso não é algo que se aprende na escola, mas que está presente nas atitudes e comportamentos do dia-a-dia, bem como na cultura.

Os povos asiáticos em geral, e o Japão em particular, nos fornecem exemplos muito interessantes de como a religião de um povo influi no seu modo de ser e de viver, pois a Arte japonesa não se funda na apreciação tradicional do Belo como Verdade e Harmonia, de acordo com a Estética ocidental, influenciada pela doutrina Católica, mas sim no reconhecimento da Natureza como fonte de inspiração e sabedoria para a beleza que há no mundo. No caso do Japão, não apenas o Shintoísmo, mas também o Budismo e o Confucionismo exercem influência na formação de sua imagem do mundo, de sua cosmogonia. Pode-se argumentar que os índios das Américas compartilham com os povos orientais crenças similares nos animais e seres das florestas como deuses que fazem parte da nossa vida. Por isso, talvez, nós, “civilizados”, voltamos nosso olhar e dirigimos nossos valores para o que está à nossa volta: não os animais, as árvores e o sol, mas o dinheiro, os objetos, as coisas – crítica que Marx faz ao fetichismo capitalista, ou adoração da mercadoria. Nossos rituais contemporâneos de adoração, de Sagração da Primavera, tema de ballet de Stravinsky, poderiam ser atualizados: não passando-se numa floresta, mas num shopping center ou, ainda mais hiper-modernamente, na internet.

Vamos concluir essa discussão com exemplos tirados das artes tradicionais e da propaganda japonesa.

Por exemplo, podemos sentir esses efêmeros momentos do dia-a-dia na natureza, como no poema haiku da rã na lagoa, ou nas pinturas da escola Rinpa, que floresceu no Japão entre os séculos XVII e XIX, mas cuja essência Zen faz parte de toda a arte japonesa realizada antes de 1858, ano em que o Japão abriu seus portos e sua cultura para a influência Ocidental.

rinpa-

Podemos ainda perceber esses momentos nos pequenos atos da nossa vida, como o breve sentimento de melancolia e paz de espírito que se pode sentir numa manhã de inverno, ao se olhar pela janela. Confira esse comercial de chá verde da empresa Kirin:

Os comerciais da cerveja Kin Mugi, da empresa Suntory, também nos dão otimos exemplos. No comercial que está passando agora, de outono, bem no finalzinho, a atriz, que sempre faz o papel de dona-de-casa, vai comer o tempurá quente de abóbora: ela o segura com os dentes, resfria os dedos por um momento e segura o tempurá novamente. Pode parecer banal, sim, todos fazemos isso sem pensar, mas não lhe damos maior importância. Esse e os demais vídeos exploram esses pequenos atos cotidianos.

Assista o vídeo clicando aqui: www.suntory.co.jp

Vale a pena tirar dez minutos para conferir outros ótimos exemplos.
http://www.suntory.co.jp/beer/kinmugi
(Na página de abertura, clique sobre o terceiro icone da barra de menu amarela 「広告紹介」que está na parte inferior da tela. Então, debaixo da foto à esquerda, clique sobre o quarto item「CMアルバムをみる」. Daí é só clicar sobre as telas maiores (as menores são making-ofs).

Uma ótima semana e tudo de bom!!

Christopher Zoellner
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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