Hoje vamos falar um pouquinho de outro conceito das artes tradicionais japonesas: o Zen.

Pode soar como um clichê falar de Zen e minimalismo no Japão, mas exatamente por serem clichês a maioria de nós não sabe exatamente o que isso significa e portanto não pode compreender claramente o modo de ser dos japoneses e dos asiáticos em geral. Não necessariamente o silêncio ou um estado de relaxamento por meio da meditação, mas um outro modo muito mais simples de ver e sentir o mundo (não digo que eu compreenda, pois não sou japonês mas, morando aqui há quatro anos, a gente percebe essas diferenças no contato com as pessoas e com a cultura e, assim, tentamos nos aproximar um pouco mais do modo de ser oriental).

Helmut Brinker (O Zen na Arte da Pintura, 1985, Ed.Pensamento) comenta que o Zen baseia-se “na compreensão e vivência (…) das coisas deste mundo – sejam elas vivas ou inanimadas – a partir de seu interior”, por meio da percepcão sensorial e não do pensamento racional. Diz ainda:
“(O Zen) exige ainda um recolhimento perfeito na observação do depoimento silencioso que, em ultima instância, reintegra tudo dentro de si, para então remeter tudo ao Nada absoluto (…) que jaz além de toda forma e de toda cor. Pode tratar-se de um jardim abstrato de pedras, de uma caligrafia artística jogada espontaneamente, de um quadro elaborado a nanquim, ou de uma taça de chá primitiva.” (p.7)

Esse Nada absoluto, creio eu, é como um silêncio da percepção, como um instante ínfimo em que percebemos a essência de uma verdade ou de uma coisa banal qualquer, um momento que, creio, todos sentimos vez ou outra, uma sensação em si como a de um déja-vu embora, claro, Zen e déja-vu sejam coisas bem diferentes.
“Transformar-se num bambu e em seguida esquecer que se faz parte da essência do bambu, enquanto se pinta – esse é o Zen do bambu – que significa ‘mover-se na vida rítmica do sentido’, que tanto vive no bambu como no próprio artista.” (D.T.Suzuki, in Brinker, 1985, p.18).

Quer dizer, absorver a realidade, destilar sua essência e expressar a própria individualidade na arte, por meio de uma interpretação sincera consigo mesmo: uma consciência profunda que tenho de estar no Mundo e o Mundo estar Mim: “A Unidade no Todo e o Todo na Unidade”. (D.T.Suzuki in Brinker, 1985, p.18).

O Zen está expresso na representação desse ínfimo instante, nessa captura poética de um momento tão banal, mas onde reside a essência da vida, essa “vida rítmica de sentido”, que se adquire sem reflexão e consciência. Tão aparentemente desinteressante que chega a ser desconcertante. Por exemplo, vejamos o famoso poema haiku escrito em 1686 por Matsuo Basho, o mais importante poeta japonês do período medieval.

o velho tanque/uma rã mergulha/barulho de água
an ancient pond / a frog jumps in / the splash of water
furu ike ya / kawazu tobikomu / mizu no oto
古池や/ 蛙飛び込む / 水の音

frog

Um contexto, um personagem e uma ação estão expressos nesse momento singular em que a rã pula dentro da lagoa. Por banal que seja, representa um momento único mas que ao mesmo tempo é uma ação que acontece com todas as rãs do mundo que estão numa lagoa. Esse sentido de ausência do tempo, de timelessness, de congelar um acontecimento e colocá-lo sob o microscópio da percepção, como um zoom do Photoshop – aí reside o olhar poético do Zen no pulo da rã. O barulho da agua é o índice peirceano, o rastro do acontecimento que passou e que ficou na nossa memória poética após presenciarmos esse momento.

Continuamos na semana que vem, com exemplos tirados da arte e da propaganda japonesa.
Forte abraço e uma ótima semana!!

Christopher Zoellner
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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