Hoje eu queria comentar sobre algumas impressões a respeito de um traço cultural japonês: a neutralidade. A cultura japonesa é famosa pelo respeito ao próximo e ao espaço alheio. Por exemplo, é comum de se ver nos trens ou em cafés, amigos e amigas reunidos em grupos pequenos, e cada um absorto no seu iPhone, iPod ou game. Espaços privados portáteis que se, por um lado, integram, ao mesmo tempo são elasticos o suficiente para afastar as pessoas. Essa era uma objeção que alguns engenheiros da Sony tiveram com relação à idéia do Walk-Man: afastar ao invés de integrar. Inauguraram-se assim as relações sociais movidas a pilha e, mais recentemente, à bateria. Relações sociais recarregáveis a cada tweet ou post no Facebook. Tecnologia imitando a vida ou o contrário?

post-

Tadao Ando: arquitetura simples, neutra e elegante

Por cá, o silencio é tão importante quanto o não-silêncio, a voz, o ruído, a conversa, assim como o arroz é um sabor neutro no conjunto da refeição, do que possui sabor. Assim que as conversas entre os japoneses são também permeadas de silêncios. Não silêncios que nós, ocidentais, consideraríamos desconfortáveis, mas silêncios que dão tempo ao tempo, para se refletir, para se viver o momento, a atmosfera, o espaco criado pela presença do outro, ainda que o momento seja banal, dentro do trem. Isso vale para amigos próximos, porém; silêncios entre pessoas não-próximas são considerados desconfortáveis e a boa educação manda fazer com que o outro se sinta bem, pelo elogio e pela atenção. O lado negativo é que, em dias de mau-humor, há que se anular o próprio estado de espírito, por etiqueta social. Não uma etiqueta forçada, porém, mas profundamente enraizada na perpetuação da harmonia entre as relações sociais. Isso faz com que, a nossos olhos estrangeiros, acostumados a relações pessoais mais diretas e objetivas, essa atenção possa ser percebida como artificial, principalmente em se tratando de relações vendedor-cliente, em que o cliente é sempre tratado como rei (porém, isso é algo dificil de se imaginar fora do Japão).

Mas nós falávamos sobre neutralidade. Observadores estrangeiros costumam criticar os japoneses pela falta de opinião, por ser uma sociedade orientada para o grupo, pelo consenso social. Se o grupo decide por algo, opiniões divergentes são relevadas e faz-se o que a maioria escolheu. Essa é uma das razões para a recente alta rotatividade dos Primeiro-Ministros japoneses. Se não se conseguem realizações políticas significativas, a opinião pública torna-se negativa, a base política na Dieta se retrai e o Primeiro-Ministro acaba renunciando por falta de apoio. Isso há de ter seu papel em explicar a posição neutra que o Japão costuma tomar em questões de política internacional. Outro aspecto da cultura japonesa é o respeito à autoridade, seja o policial, o chefe, o professor, o colega mais velho ou o idoso. Sendo uma sociedade baseada em categorias de status social, a exigência de respeito faz com que as pessoas aceitem o que vem de cima sem contestações. Não que as pessoas não tenham opiniões, mas não estão acostumados a abertamente contestar autoridades.

Essa estrutura social é uma herança do Confucionismo, filosofia que tornou-se a organizadora das estruturas sociais e burocráticas, primeiro na China, influenciando a Coréia e o Japão ao longo da História.

Exemplos como esses nos permitem observar como os comportamentos sociais são corporificados em normas, objetos, arquiteturas, roupas, penteados, pinturas, rituais, etc. Sabemos que os objetos refletem os modos de viver sociais (Appadurai, Arjun. 1986. The Social Life of Things: Commodities in Cultural Perspective. New York: Cambridge University Press). Por exemplo, propagandas de aspiradores de pó, batedeiras e lavadoras de roupa dos anos 50, seja no Brasil, na Inglaterra ou no Japão, invariavelmente constróem uma imagem do papel social desempenhado pela mulher daquela época: a dona-de-casa que cuida da familia e que tem tempo livre graças ao desenvolvimento tecnológico.

Semana que vem terminaremos falando de cores e conceitos estéticos japoneses, como expressões de neutralidade na cultura visual japonesa tradicional.

Uma ótima semana!!!

Christopher Zoellner Pinto

ピント、クリストファー・ゾエルネル

Compartilhe a natureza!