Durante os choques de personalidade entre as músicas francesa e alemã, no comecinho do século XX, Debussy havia mandado um recado desaforado a Mahler, reclamando de sua música germânica, barulhenta e extremamente emocional – ao que Mahler deu o troco, dizendo que a música francesa, impressionista,  era feita “para não incomodar” (Marc Vignal, Mahler, 1996).

Podemos dizer que “não incomodar o outro” tem sido um dos ingredientes que compõem a cultura japonesa há séculos. Por exemplo, mesmo hoje em dia, muitas vezes as crianças japonesas são vítimas de perseguições por colegas na escola e, às vezes, por não haver diálogo com os pais, ou para “não incomodar”, elas acabam se suicidando por não conseguir resolver seus problemas sozinhas. Esse é um lado negativo e extremo na cultura japonesa, que todos os povos os temos, mas o que isso tem a ver com moda? Diretamente, nada, já que felizmente não vemos suicídios causados por nenhuma desastrosa combinação de estampas florais com listras, mas sim que a maneira como você se veste vai agradar ou incomodar o outro, e faz parte da cultura vestir-se de modo neutro (cinzas, beges, azuis, pretos, grafitis – no caso de cores mais quentes, uso de tons pastéis – preferíveis aos tons puros). Quer dizer, manda a educação que não se incomode o outro, seja pelas cores, pelos acessórios ou combinações de peças, estampas, etc.

Existem dois conceitos estéticos tradicionais no Japão: jimi 地味e hade 派手(le-se dji-mi e ra-de). Jimi significa coisas que são neutras, que não incomodam, enquanto hade se usa para coisas extravagantes, coloridas e que se sobressaem. A cultura japonesa tradicional, então, preza comportamentos sociais e roupas que sejam jimi, considerando hade como algo vulgar e de mau-gosto.

Por aí se vê que ser neutro é uma regra de comportamento social, válida tanto para o vestir-se, como para a maneira de falar e de gesticular. O arroz japonês pode ser um exemplo. Preparado sem tempero, nem mesmo sal, não tem nenhum gosto especial além do puro sabor do arroz – sem graça, diriam muitos brasileiros. Porém, essa falta de sabor é considerada um sabor neutro, a ser apreciado junto com comidas que têm sabor, como peixe, picles (tsukemono), carne, sopa de soja (missoshiro), etc. Assim podemos apreciar tanto o que é bom como o que é ruim, ou não-bom, em relação ao não-ruim.

Podemos generalizar esse conceito para outras esferas da vida social: Feio x Bonito, Dor x Prazer, Quente x Frio, Azedo x Amargo, etc. Seguindo esse ponto de vista, tornamo-nos capazes de apreciar o feio, ou o que nos desgosta, em relação ao bonito, que é uma característica do conceito Wabi Sabi – grosso modo, a apreciação da beleza na rusticidade.

wabi sabi

Por exemplo, segundo os padrões estéticos tradicionais, apreciar a beleza de uma modelo deslumbrante nas páginas da Vogue é fácil e, até, cansativo, já que todas se parecem; creio que o japonês de outros séculos diria que é mais interessante apreciar a beleza de uma mulher feinha, pois o prazer está em ser capaz de encontrar o belo no que não é. Assim, uma camélia murcha é mais interessante que uma camélia viçosa, pois as formas e cores que a decrepitude assume são mais variadas que a beleza-padrão das flores jovens. Mas os tempos são outros e, a partir dos anos 60, os japoneses vêm adotando modos de viver ocidentalizados, mais individualistas.

Flor Noa - flor murcha

Quero abrir um parêntese e comentar que o olho de “big brother” que a sociedade põe nos indivíduos nao é exclusividade de nenhum país, nem do Japão, pois podemos ver isso muito bem no Brasil mesmo.  O estudante de moda, Nilton Quirino, que deixou um comentário no post anterior, bem lamenta essa não-aceitação numa cidade do nosso interior: “Aqui uma blusa estonada, furada, rota, é sinônimo de pobreza, anti-higiêne, etc.. Calça rasgada? Skinny? Lavagem acid wash? Pra homem? Te olham estranho na rua, riem, zoam, etc…”. O jornalista norte-americano Henry Louis Mencken já havia reclamado a esse respeito do povo de Filadélfia (ou seria Pittsburgh?) no final do século XIX, pois dizia que eles trocavam de camisa uma vez por dia e de preconceitos uma vez por geração… É como dissemos num post anterior, Moda e Anti-Moda convivem e devem procurar um ponto de equilíbrio, uma convivència pacífica, pois nem todos são obrigados a gostar de tudo, mesmo porque há modas e modas e cada um com seu próprio estilo e experiência de vida.

Semana que vem concluiremos essa discussão, falando sobre duas regiões fashion de Tokyo: Shimokitazawa e Harajuku!

Uma ótima semana e tudo de bom!!

Christopher Zoellner
ピント、クリストファー・ゾエ

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