No Japão, são rígidas as regras de comportamento, dissemos, porém mais dirigidas aos adultos que às crianças e adolescentes, pelo menos com relação ao vestir-se, pois a eles é permitido aproveitar uma vida ainda sem as responsabilidades que traz a vida adulta. Enquanto no Ocidente os adultos são livres para conduzir suas vidas como quiserem, sem que ninguém tenha nada a ver com isso, no Japão espera-se que eles sirvam à sociedade e abram mão da liberdade que tinham na infância. Claro que não podemos generalizar dizendo que todos seguem a cartilha, que todos são iguais, mas no Japão vem aumentando a quantidade de adultos que, de uma maneira ou de outra, optam por não se enquadrar nas expectativas sociais: homens que preferem jogar videogames ao invés de procurar namoradas, salaryman que se cansam do stress do escritório e largam família e amigos para virar mendigos (homeless), mulheres que optam pelas suas carreiras profissionais e dizem “não” à vida de dona-de-casa, etc, etc.

Então, se aos adolescentes permitem-se mais extravagâncias, vemos as diversas tribos de rua com diversas ideologias e modos de vestir. Aliás, muitas dessas tribos são o que se chama em inglês de “self-fashioning”, quer dizer, tribos que criam suas próprias roupas, como foram os punks nos anos 70 e 80, os hippies, etc. Falando de street styles, vamos falar do oposto do tradicional conceito de neutralidade: o uso de roupas hade, em cores fortes e combinações inusitadas de estampas e peças de roupa.

Por exemplo, há um distrito em Tokyo chamado Shimokitazawa 下北沢, a uns dez minutos de trem de Shibuya 渋谷, a meca da moda jovem do Japão (falaremos de Shibuya num próximo post). Shimokitazawa já era uma região boêmia em Tokyo nos anos 50, onde se concentravam pequenos bares, teatros e cinemas, tendo sempre possuído um caráter alternativo. Hoje os cinemas e teatros não existem mais, mas as estreitas ruas cheias de bares e issakaya (bar em estilo japonês), um ao lado do outro, garantem uma vida noturna agitada por japoneses e estrangeiros. De dia a região conta com cafés e lojas de decoração muito charmosas mas o que chama a atenção é a cultura indie que se vê nas lojas de roupas e nos estilos dos frequentadores, jovens, em sua maioria: sobreposições de estampas e cores aparentemente desconexas, chapéus e bonés, sneakers e botas, cachecóis e lenços no pescoço, bolsas para homens, cintos coloridos e acessórios diversos, óculos de grau e de sol com armações diferentes, etc.

Shimokita_

Outro exemplo de liberdade de vestir-se pode ser visto nos livros Fruits, de Shoichi Aoki, ainda à venda na Amazon. Nele se vêem fotos de jovens e adolescentes japoneses nos anos 90, na região de Harajuku 原宿, em Tokyo, também próxima de Shibuya. Ainda hoje, Harajuku (le-se Ha-ra-dju-ku) é ponto de encontro de street styles como os cosplayers, as lolitas, os góticos, gyarus e outras diversas tribos e variações existentes. No início dos anos 90, eles passaram a se encontrar para mostrar as roupas que preparavam durante a semana, para ser usadas nos finais de semana e feriados, especialmente nos domingos de sol. Encontravam-se em Harajuku para passear, fazer compras, piquenique ou simplesmente ficar por lá, na calçada em frente à GAP ou na ponte que dá pro Parque Yoyogi. Com o passar dos anos, o movimento perdeu força, mas ainda hoje pode-se vê-los caminhando pela Takeshita Street, que reúne centenas de lojinhas de roupas e acessórios para lolitas e góticos.

fruits

Embora nossa cultura ocidental seja mais hade, quer dizer, mais extravagante, assertiva e individualista que a japonesa, isso não quer dizer que nossa sociedade aceite, em geral e sem preconceitos, modos de vestir diferentes do convencional. Não dá pra imaginar um brasileiro, em Umuarama, Curitiba ou Indaial, vestido como se estivesse em Harajuku, sem que ninguém se virasse pra olhá-lo na rua, né? Bom, aí entram outras considerações culturais, outros sistemas morais, que tornam diferentes as culturas ocidental e oriental. Vida longa às diferenças, sim, mas com um pouco mais de flexibilidade! Onegaishimasu お願いします (= por favor)!!

Christopher Zoellner
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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