Você se lembra daquele CD do Chico, “Paratodos”, de 1993? Foi o que me veio à mente ao ler o post do Jefferson (A moda das bem nascidas, 11 de agosto), sobre o design não ter que ser coisa de gente com dinheiro e “sobrenome”. Tanto é assim, que se a gente voltar o olhar pra Europa e pra Ásia, vamos ver que a gente comum usa marcas “de design” e também de alto luxo.

O sociólogo francês Gilles Lipovetsky (O Luxo Eterno, Cia. Das Letras, 2005) chamou a atenção para o fato de que as marcas de alto luxo adotaram uma nova estratégia de marketing no final dos anos 90: por estarem perdendo mercado com as mudanças de comportamento social e os novos valores emergentes resultantes das crises econômicas que afetaram a economia mundial naquela década, marcas gigantes passaram a focar o consumidor comum, a classe média. Quer dizer, o consumo de alto luxo passou a ser visto não mais como um diferenciador, um signo de status social, mas como pequenos presentes que nos damos em momentos especiais ou que, à parte a excelência da qualidade, fazem-nos sentir emocionalmente bem. Criar atmosferas emocionais que dêem lugar às disputas de status, sentir-se bem consigo mesmo, seguro de quem se é – eis a nova forma de socialização a refletir a emergente economia global. Quer dizer, “design” não tem necessariamente a ver com “alto luxo” ou exclusividade.

Gostaria agora de refletir um pouco sobre a sociedade japonesa. Apesar da crise econômica persistente, há mais de duas décadas, que vem empobrecendo a classe média do país, o design de qualidade sempre foi fundamental no Japão. Resultado de uma cultura em que a Arte sempre foi parte integrante do design de objetos utilitários (crafts), conceitos como estética e funcionalidade, tradição e emoção sao pontos que não se questionam na apreciação estética do design japonês, seja ele tradicional ou contemporâneo.

Bota de chuva Muji - Cadeira Butterfly de Sori Yanagi

Assim, uma marca como a japonesa Muji, pode ser considerada como uma “paratodos”.

A Muji, ou Mujirushi 無印 (que siginfica “Sem Marca”), é uma empresa que tem um forte foco em design e na pesquisa e diálogo com o público consumidor. Dirigida pelo famoso designer Naoto Fukasawa, a Muji é uma marca de produtos para casa, escritório e utensílios domésticos em geral, além de roupas, comidas e até mesmo arquitetura. O conceito estetico é o de neutralidade, pois quase todos os produtos são brancos e sem ornamentação, com um mínimo de “design”, como diríamos popularmente. Fukasawa-san possui ainda sua própria marca, +-0 (plus minus zero) em que explora uma interatividade fortemente emocional de seus produtos com o consumidor.

bolsa-sapato-Naoto-Fukasawa

Nesse ponto, poderia-se dizer que o Japao é uma sociedade culturalmente homogênea, apesar da crescente diferença econômica entre as classes. Do carpinteiro ao diretor executivo, todos compartilham a mesma bagagem cultural, quer dizer, usam as mesmas expressões de cortesia no trato social, usam os hashis (pauzinhos) e sentam no chão da mesma maneira, e comem basicamente o mesmo tipo de comida. Para nós, brasileiros, pode ser difícil imaginar uma sociedade assim, tão diversa é nossa formação cultural e étnica. Originalmente, somos uma sociedade de iguais-diferentes, cada vez mais criando e encontrando identidades culturais comuns. Por que o design nao poderia vir a ser esse elemento cultural aglutinador?

Resta agora que o design torne-se cada vez mais acessível – para a própria reciclagem do círculo da moda. Mais gente usando design significa mais estilos em exibição nas nossas calçadas. Quem nunca sentiu inveja de ver londrinos e milaneses muito à vontade nos seus estilos pessoais? Que, no Brasil, em Curitiba, Porto Alegre, Alagoas, etc, surjam mais designers para que tenhamos todos mais acesso a novas criações, para mais podermos expressarmos nossas identidades. Design é sinônimo de estilo, que é um diferenciador de personalidades – claro que baseado na originalidade e na excelência de qualidade. Porém, nossos gostos e personalidade mudam com o tempo, e não se espera que uma roupa, ou celular, sejam feitos para durar três, cinco anos.

Design não é luxo, não é superfluo – é emocional. Design para si mesmo, não para o outro. E que seja Paratodos!

Christopher Zoellner
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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