Concerto para Clarinete “Peacock Tales” (Contos do Pavão), de Anders Hillborg, clarinete: Martin Frost.


Como estamos tendo a 29ª Bienal de São Paulo este ano, esta é uma ótima oportunidade para refletirmos sobre o dualismo Cultura e Natureza, e pensarmos no papel que a Arte desempenha nas nossas vidas. Vejamos, parece haver um problema de entendimento quando se trata de artes visuais, que é o seguinte: quase todo mundo se pergunta o que é e para que serve Arte, pergunta aliás tão antiga quanto a própria história da Arte. Quase todo mundo diz que não entende de arte, e não só da arte contemporânea. Mas quando se trata de música, todos entendem, todos têm uma opinião. Por que isso?

“Sakana” (Peixes) para Sax Tenor solo, de Dai Fujikura, sax: Masanori Oishi.

Provavelmente porque a percepção da música é puramente emocional e as artes visuais deixaram de ter componentes emocionais, estéticas, focadas no conceito de Belo, e tornaram-se Pensamento. As artes visuais se distanciaram do público após a invenção da fotografia, em que ela perdeu a função referencial de representar o mundo e tornou-se cada vez mais um relato pessoal, com cada artista criando sua visão de mundo, seguindo as mudanças sociais, científicas, tecnológicas, etc. Tornou-se tão pessoal que passou a ser necessária uma explicação, uma bula, por conceitual que se tornou. De imagem, virou palavra, pensamento.

Mas por outro lado, imagens, exatamente por valerem mil palavras, estão abertas a interpretações, daí que nós deveríamos ir à Bienal para brincar, exercitar nossa criatividade e reflexão, e recriar por nós mesmos o que os artistas fizeram. As crianças são ótimas em fazer isso, mas parece que os adultos vamos perdendo essa capacidade imaginativa conforme vamos absorvendo condicionantes culturais. Muitas vezes a gente vai a uma exposição e procura entender, procurar uma lógica que faça sentido. Mas a arte contemporânea não se baseia em fazer sentido, mas em provocar por meio do absurdo, do choque ou da falta de contexto. Nós não temos que entender exatamente o que os artistas quiseram dizer, porque arte é processo: eles criaram, cabe a nós recriar, interpretando-a.

29ª Bienal de São Paulo

Talvez por isso a música seja tão fácil de entender. Basta sentir, não tem que pensar. Mas aí entramos numa outra questão interessante: e quando a música também foge dos conceitos estéticos convencionais de harmonia e beleza, como fica? O princípio é o mesmo que vale para as artes visuais: não pretender comparar estéticas de épocas distintas, mas situar o contemporâneo no contemporâneo. De resto, é questão de gosto, mas principalmente de educar o paladar ouvindo, lendo, procurando compreender as origens do pós-, do hyper-moderno na contemporaneidade das artes visuais, da música, da dança, da literatura. É uma viagem longa muito legal!!

Aichi Triennale 2010, Japão

O que você acha desse conceito, Arte-Pensamento? Você costuma ir a exposições? E quando vai, como interage com as obras? Procura entender, ou prefere não pensar, apenas sentir? O título é importante ou você procura recriar a obra a seu modo? Deixo um video do programa Metrópolis, da TV Cultura, sobre o primeiro dia da Bienal, pra inspirar e fazer refletir, e outro sobre a Trienal de Aichi, em Nagoya, que está acontecendo agora no Japão.

Um forte abraço!!!

Christopher Zoellner Pinto
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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