Há umas duas semanas atrás, falamos sobre Natureza e a percepção dos pequenos momentos da vida que passam despercebidos da nossa atenção. Vimos como o pensamento japonês valoriza a percepção desses espaços emocionais nas nossas vidas, transpondo-os para diversas formas do fazer criativo, como a poesia, as artes visuais e os comerciais de tv.

Arte e Natureza são duas dimensões de nossa existência como seres humanos. Arte relaciona-se com o ambiente cultural em que vivemos, sendo um produto da atividade humana – uma atividade que procura criar significações para o mundo.  Já a Natureza é o ambiente que precede nossa existência, o solo primordial do qual tiramos nossas fontes de vida e inspiração, seja em termos de recursos naturais como de recriação de nós mesmos.

Natureza é o lugar em que vivemos, no qual interagimos com outros seres vivos e fenômenos. É através do movimento do Sol, da percepção das montanhas, de alimentos comestíveis e lugares e situações perigosos que aprendemos a sobreviver, como animais e como seres humanos (com a devida atualização para o ambiente urbano). Quer dizer, é através de nossos corpos, o meio pelo qual interagimos com o mundo, que essas affordances nos tornam conscientes de nossa existência como indivíduos culturalizados.

O termo affordance (creio que não haja uma tradução direta para o Português) significa as possibilidades de ação que os elementos ambientais nos oferecem, e pelos quais interagimos com o mundo. Quer dizer, se formos para a montanha, uma pedra oferece a possibilidade de subirmos nela (affords climbing), ou um rio nos permite beber água ou pescar (affords drinking or fishing); uma caneta nos permite escrever (affords writing), uma cadeira, sentar (affords sitting) ou uma Sabota, calçar (sim, sim, um minuto para nosso patrocinador!). Por óbvio que pareça ser, porém, essa teoria é utilizada, por exemplo, no design e desenvolvimento dos movimentos perceptivos de robôs, no contexto da Psicologia Ecológica (Ambiental). Mas vamos voltar ao nosso assunto.


I Club Playing With Objects

No contexto de nossa vida urbana, pode-se dizer que imagens, artefatos e obras de arte, como as pedra da montanha que nos ajudam a escalá-la, são meios que fazem despertar respostas emocionais em nós (affords emotional responses).  Texturas e padrões de tecidos, por exemplo um vestido com estampas florais ou com imagens de pássaros, fazem com que sejam criadas atmosferas emocionais por meio das quais expressamos nossa individualidade, pois elas entram em ressonância com nossos valores morais, culturais, etc, e com as imagens que temos de nós mesmos – assim como um iPod, que cria territórios musicais individuais e portáteis. É por meio das cores, composições e motivos que percebemos sensivelmente esse ambiente cultural que nos permite ser em nosso território, tanto quanto os pássaros são, vivem e percebem, no ambiente natural.

Affordance of a Crosswalk

O que eu quero dizer com esse conceito de affordance (J.J.Gibson, “The Ecological Approach to Visual Perception”, 1979) é que a Natureza é uma fonte de inspiração e percepção primordial, pois mesmo nossa cultura tecnológica e urbana com ela traça paralelos. O ambiente que nos rodeia, seja no campo ou na cidade, permite-nos (affords) aprender, pensar e imaginar novas visões de mundo. Esse é o fazer do artista, do poeta, do músico, do designer e dos Criativos em geral. Não só expressar sentimentos individuais, mas reorganizar os elementos que nosso ambiente nos oferece através de outros meios, materiais, linguagens – e assim ressemantizar, quer dizer, cada um de nós irá gerar novos significados por meio de recriações ou reinterpretações individuais, pela leitura das obras – como fazemos indo a uma exposição de artes, como na Bienal. Fazer pensar e eventualmente oferecer prazer estético – essa é uma das razões de ser da arte contemporânea. Vai-se a uma galeria ou a um museu como se abre um livro de filosofia, mas ao invés de palavras, temos imagens.

Vamos terminar essa discussão na semana que vem, relacionando nossa percepção ambiental com o papel que Natureza e Cultura desempanham na nossa compreensão das Artes e do nosso estar-no-mundo.

Forte abraço!!!

Christopher Zoellner Pinto
ピント、クリストファー・ゾエルネル

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